Xutos & Pontapés : morreu Zé Pedro, uma estrela do rock português

O guitarrista dos Xutos & Pontapés Zé Pedro, que morreu hoje, em Lisboa, aos 61 anos, tinha na banda a força que o puxava para a rua, e assumiu com orgulho ser “uma estrela do rock”, mas sem “uma vaidade exagerada”.

Zé Pedro estava doente há vários meses, mas a situação foi sempre mantida de forma discreta pelo grupo, tendo só sido assumida publicamente no passado dia 04 deste mês, no concerto do final de digressão dos Xutos & Pontapés, no Coliseu de Lisboa.

José Pedro Amaro dos Santos Reis nasceu em Lisboa, em 14 de setembro de 1956, numa família de sete irmãos, “com um pai militar, não autoritário, e uma mãe militante-dos-valores-familiares”, como recordou num dos capítulos da biografia “Não sou o único” (2007), escrita pela irmã, Helena Reis.

A relação com a música vem desde novo, por influência do pai, e uma das memórias é uma ida ao festival Cascais Jazz, na adolescência.

Nos anos de 1970, escreveu crónicas de música no suplemento Mosca, do Diário de Lisboa, e gastou o primeiro ordenado num aparelho de rádio. No verão de 1977, numa viagem de comboio pela Europa foi a um festival punk no sul de França, que terá sido decisivo para a formação pessoal e para o que queria fazer de futuro.

De regresso a Lisboa, mergulhado na estética punk rock, conheceu o músico Pedro Ayres Magalhães, então dos Faíscas, do qual se torna ‘manager’ oficial.

Foi no final dessa década de 1970 que Zé Pedro, juntamente com Zé Leonel e Paulo Borges, decidiu criar uma banda, batizada de Delirium Tremens. Passou depois a chamar-se Xutos & Pontapés, já com a entrada de Kalú e de Tim para o lugar de Paulo Borges.

O primeiro ensaio aconteceu em dezembro de 1978, na Senófila, em Lisboa, e o primeiro concerto realizou-se em 13 de janeiro de 1979, nos Alunos de Apolo, em Lisboa. São estas as datas-chave do aparecimento do mais duradouro grupo rock português, que fez de Zé Pedro um dos mais carismáticos, conhecidos e acarinhados guitarristas da música portuguesa.

Numa entrevista ao Diário de Notícias em 2016, Zé Pedro dizia: “O rock’n’roll é um estado de espírito, e uma pessoa ou sente ou não sente. Não é preciso ser músico para se sentir, tem que ver com aventura. Pode ter que ver com uns certos limites na vida, mas tem, acima de tudo, que ver com a realização pessoal de uma vida mexida”.

Anos antes, na biografia “Não sou o único”, que Helena Reis escreveu sobre o irmão, lia-se: “A grande força que o puxava para a rua, para a vida, eram os Xutos & Pontapés, a noite, o movimento, os sons do espetáculo”.

É nesta biografia que Zé Pedro também fala sobre os pais e os irmãos, os altos e baixos da carreira dos Xutos e Pontapés e os problemas com a droga e o álcool, que quase lhe tiraram a vida em 2001, quando sofreu uma hemorragia interna.

Em maio de 2011, por causa de novos problemas de saúde, fez um transplante de fígado e, pouco tempo depois, voltou aos concertos, porque dizia que estar em cima de um palco lhe dava saúde.

Colecionador de música, a par da vida nos Xutos & Pontapés, Zé Pedro desdobrava-se noutros projetos, como a rádio, tendo colaborado com Jaime Fernandes e Luís Filipe Barros na Rádio Comercial, com Henrique Amaro, na Rádio Energia, com Miguel Quintão na Vox ou, mais recentemente, na Rádio Radar.

Foi ainda DJ, um dos gerentes e diretor artístico do Johnny Guitar, fez parte dos Cavacos, do Palma’s Gang, dos Maduros, dos Ladrões do Tempo, congregando várias gerações de músicos e de públicos.

Em 2004, quando os Xutos & Pontapés celebraram 25 anos de carreira, os cinco músicos da banda — Tim, Zé Pedro, Kalú, João Cabeleira e Gui — foram agraciados pelo então presidente da República Jorge Sampaio com o grau de comendador da Ordem de Mérito, por “serviços meritórios” prestados ao país.

Em 2011, depois do transplante de fígado, razão pela qual mudou o estilo de vida, Zé Pedro recordou em entrevista ao Expresso que sempre assumiu ser “uma estrela do rock”, com orgulho, mas sem “uma vaidade exagerada”.

Nesse ano, quando lançou o álbum de parcerias “Convidado: Zé Pedro”, Zé Pedro disse, em entrevista à agência Lusa, estar agradecido pela vida que teve: “Enquanto se cá está, tem que se estar a fazer coisas e, se tens a oportunidade de as fazer, não se pode desperdiçar. Felizmente, não sou nada nostálgico. As coisas foram vividas na altura certa e o que foi não volta a ser”.

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