Urso de Ouro para Portugal nas curtas-metragens de Berlim

Diogo Costa Amarante vence em Berlim com um filme estreado no Curtas Vila do Conde. Dos quatro filmes portugueses a competir para o Urso de melhor filme na Berlinale Short, Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, era aquele que teoricamente menos hipóteses tinha de vencer.

Anteriormente, tinha estado no Curtas Vila do Conde, onde, conforme contou ao DN, na conferência de imprensa dos vencedores, sempre pensou fazer o circuito dos festivais internacionais e a Berlinale.

“Na verdade, não fiquei surpreendido por ter sido convidado pelo Festival de Berlim, mas fiquei mesmo muito surpreendido com esta vitória”, frisou. Mas nessa estreia mundial em Vila do Conde (o Curtas foi em julho passado…) esta curta documental e experimental foi ignorada no palmarés e nem terá tido as melhores críticas.

O que é afinal Cidade Pequena? Ensaio de um possível meta-home movie? Uma evocação às possibilidades de reenquadrarmos a realidade? Talvez isso tudo e uma vontade de cruzar registos e filmar um certo Portugal. Seja o que for, é uma visão com um cuidado estético muito próprio, com o ratio do formato a provocar o campo de visão do espectador.

Um filme de muita arte e ainda mais ensaio, rebuçado cheio de calorias para os festivais que querem ovnis, ainda que o anterior As Rosas Brancas fosse mais conciso e conseguido.

A verdade é que figura como o segundo Urso de Ouro consecutivo para uma curta-metragem portuguesa no festival alemão, depois do também experimental Balada de Um Batráquio, de Leonor Teles, ter vencido no ano passado.

Em Berlim e nos mais consagrados festivais, nas curtas, a narrativa nunca é beneficiada.

O cinema de risco está em alta. Queres ganhar um Urso de Ouro? Não contes uma história, parece ser a mensagem…

Ainda na conferência de imprensa, o DN perguntou a Diogo Costa Amarante se se considera um cineasta internacional ou português e a resposta foi pronta: “Acho que essa coisa do cineasta português é um cliché e também isso de pertencer ao cinema português. Sou português mas tenho vivido fora: em Barcelona, nos EUA e também aqui em Berlim. Portanto…”.

Se As Rosas Brancas não teve apoios estatais portugueses, o mesmo acontece com esta Cidade Pequena. De alguma forma, Diogo Costa Amarante é um nome fora da moldura de um certo cinema português que faz figura nos concursos do ICA. Mas nem por isso sabotou o protesto em Berlim da Associação dos Realizadores portugueses.

Não apareceu no jantar com o ministro da Cultura e na conferência de imprensa disse porquê: “Apesar de este filme não ter vencido o subsídio do ICA não quis deixar de me solidarizar com esses realizadores que estão a lutar por valores com os quais me identifico.”

De registar que esta curta premiada conta com a participação de familiares diretos do cineasta. A outra curiosidade é que utiliza a canção clássica de F. R. David, Words, por sinal fundamental num dos filmes mais apaixonantes desta Berlinale, Call me by Your Name, de Luca Guadagnino.

O que se passa com os portugueses e as curtas? Outro jornalista português perguntou… “Bem, isto são boas notícias para nós”, disse o cineasta.

O dia de ontem também trouxe notícias felizes para outro realizador português habitué deste circuito dos festivais internacionais, Gabriel Abrantes, que viu o seu irresistível Os Humores Artificiais ganhar a vaga de melhor curta-metragem nos Prémios do Cinema Europeu de 2017, os chamados Óscares da Academia europeia. Um justo prémio para um filme de um romantismo insolente. (DN)

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